Depois de acompanhar o episódio do Medcloud Talks sobre inteligência artificial e a nova regulamentação do CFM com Rizzieri Gomes, uma mensagem ficou ainda mais clara: o debate já não deveria ser sobre usar ou não usar IA, mas sobre como utilizá-la com segurança, transparência e responsabilidade.

O Conselho Federal de Medicina já definiu sua posição. A Resolução CFM nº 2.454/2026 não proíbe o uso da inteligência artificial. Pelo contrário: reconhece expressamente o direito do médico de utilizar essas ferramentas como apoio à prática profissional, à decisão clínica, à gestão, à pesquisa e à educação médica.

Mas a norma estabelece um ponto inegociável:

A IA é uma ferramenta de apoio. A decisão final continua sendo do médico.

Na radiologia, isso significa que o laudo não pode ser resultado da aceitação automática de uma sugestão tecnológica. Quem analisa, valida e assina o documento permanece responsável pelo seu conteúdo.

Publicada em 27 de fevereiro de 2026, a resolução entra em vigor após 180 dias, ou seja em 26 de agosto de 2026. Portanto, não estamos falando de um futuro distante. Serviços de saúde, gestores e médicos precisam começar agora a revisar seus fluxos e preparar suas equipes.

O que muda, na prática, para o radiologista?

1. A sugestão da IA precisa passar pelo julgamento crítico do médico

A IA pode identificar padrões, reunir informações, organizar o histórico, sugerir termos e até apoiar a construção do laudo. Entretanto, nenhuma recomendação deve ser aceita de forma automática.

Cabe ao radiologista verificar se o que foi sugerido é coerente com as imagens, o contexto clínico, os exames anteriores, as evidências científicas e as boas práticas da especialidade. O médico pode acolher ou rejeitar a recomendação da ferramenta, preservando sua autonomia profissional.

2. O uso da IA precisa ser transparente

A resolução determina o registro, no prontuário, de que a inteligência artificial foi utilizada como apoio à decisão médica. O paciente também tem o direito de ser informado, de forma clara e acessível, quando a tecnologia participar de maneira relevante do seu cuidado, diagnóstico ou tratamento.

Isso exige mais do que uma mudança tecnológica. Exige organização institucional: definição de protocolos, treinamento das equipes, proteção dos dados e criação de formas adequadas de documentar e comunicar o uso dessas ferramentas.

3. A comunicação do diagnóstico continua sendo humana

A IA pode ajudar a organizar informações e até tornar a linguagem mais compreensível. Mas não deve ser colocada na posição de comunicar sozinha um diagnóstico, um prognóstico ou uma decisão terapêutica.

O CFM proíbe que essa comunicação seja delegada à tecnologia sem a devida mediação humana. Afinal, comunicar um diagnóstico não é apenas transmitir uma informação. É considerar contexto, dúvidas, emoções, consequências e próximos passos.

A resolução não freia a inovação. Ela estabelece maturidade.

Vejo a nova norma como um avanço. Ela reconhece que a inteligência artificial já faz parte da medicina e pode ser um verdadeiro braço direito do radiologista: agilizando tarefas, trazendo mais contexto, reduzindo o trabalho operacional e criando novas barreiras de segurança.

Mas também nos lembra que tecnologia sem supervisão pode gerar novos riscos.

Na plataforma da Medcloud, minhas ferramentas favoritas são a Laraa, que auxilia na transcrição e estruturação dos laudos; o Deep Insight, que oferece apoio na consulta de achados e na construção do relatório; e o Chronolens, que organiza e resume o histórico de exames anteriores. Elas facilitam muito a minha rotina.

A decisão, o cuidado, a responsabilidade e a comunicação continuam sendo humanos.